segunda-feira, 27 de junho de 2016

JOAQUIM BARBOSA: DE FAXINEIRO A PRESIDENTE DO SUPREMO



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Filho de um pedreiro, Joaquim Barbosa fugiu da pobreza, fez bicos, trabalhou numa gráfica de madrugada para poder estudar de dia e chegou ao cargo máximo da Justiça.

O pedreiro Joaquim Gomes desembarcou em Brasília no início dos anos 70 para fugir da pobreza na qual vivia em Paracatu, Minas Gerais. Trouxe junto a esposa, a faxineira Benedita, e os oito filhos. Dentre eles, estava o jovem Joca, que tinha um objetivo muito claro: fugir da irrelevância – sina reservada a milhares de negros, pobres e migrantes como ele. Começou fazendo bicos – inclusive como faxineiro. Dedicado, acabou sendo chamado para trabalhar como datilógrafo na gráfica do Senado. Ontem, quase quatro décadas depois, aos 58 anos de idade, Joca tornou-se o primeiro negro a assumir a mais alta corte judicial do país.

Joca era o apelido de infância do ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes, que tomou posse na quinta-feira como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), em substituição a Ayres Britto, que se aposentou.

Determinação

Uma das principais características de Barbosa que o levou aonde chegou foi a determinação – algo que que ficou claro durante o julgamento do mensalão, mas que sempre o acompanhou.

O trabalho na gráfica do Senado, seu primeiro emprego, não era exatamente atraen­­te. Mas ele não tinha escolha. O jovem Barbosa trabalhava das 18h às 4h da madrugada datilografando textos para o Jornal do Senado. Nesse período, passou no vestibular para Direito, na Universidade de Brasília (UnB), e teve que se desdobrar para se manter na faculdade e no trabalho.

Segundo antigos colegas, algumas vezes, Barbosa dormia na oficina porque não sobrava tempo para voltar para casa. Ainda assim, fazia seu trabalho direito. “Ele era compenetrado, muito atento no serviço”, atesta o ex-coordenador de produção Mário César Pinheiro Maia, chefe de Barbosa na gráfica e ainda hoje amigo do ministro. Maia também era técnico do Photon, o time da gráfica em que Barbosa jogava como ponta-esquerda: “Ele gostava de driblar, não soltava a bola. Era fominha, mas jogava bem”.

“Quando ele não estava trabalhando, estava estudando. Teve uma vida sofrida, mas era bom menino”, lembra José de Lourdes, parceiro de Barbosa em longas madrugadas de trabalho. Quase sempre calado, Barbosa não aceitava provocação. Segundo Lourdes, certa vez, um colega faixa preta em judô fez uma brincadeira de mau gosto. Barbosa rasgou um palavrão e exigiu que o lutador se retratasse. Assim, impôs respeito.

Na UnB, Barbosa teve uma passagem discreta. No perío­­do, os estudantes estavam divididos entre progressistas, que queriam derrubar a ditadura militar, e conservadores, alinhados com o regime. Segundo o ex-reitor da UnB José Geraldo de Sousa, contemporâneo de faculdade do ministro, Barbosa era um reformista. Queria mudar o sistema, mas dentro das regras estabelecidas.

Apesar disso, diz o ex-reitor, naquele período Barbosa estava mais concentrado nos estudos do que no movimento estudantil. Ainda na UnB, Ele passou no concurso para oficial de chancelaria do Itamaraty. A partir daí, a carreira deslanchou. Foi procurador jurídico do Ministério da Saúde, fez mestrado, doutorado e passou no concurso de procurador do Ministério Público Federal. Aprendeu a falar francês, inglês e alemão.

Ironia

Em 2003, quando Lula procurava por um negro para indicar ao STF, Barbosa já tinha o currículo recheado de referências nacionais e internacionais. Mas a escolha não foi fácil. Rememorada hoje, a história é cheia de ironias.

O advogado Antonio Carlos “Kakay” de Almeida Castro, que viria a ser defensor de réus do mensalão, afirma que marcou um encontro de Barbosa com o então ministro da Casa Civil José Dirceu – classificado pelo hoje presidente do STF como o chefe da quadrilha do mensalão. Logo depois, o ex- ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos – outro advogado dos acusados do mensalão – entrou no circuito e ajudou a assegurar a indicação do então procurador por Lula.

Já como ministro do Supremo, Barbosa acabou sendo designado, em 2007, para relatar o caso do mensalão – esquema que Lula sempre negou ter existido. “Joca” demonstraria ser implacável com esse caso de corrupção. Hoje, virou herói nacional da moralidade pública e motivo de satisfação para sua mãe, Benedita Gomes da Silva. “Estou muito orgulhosa”, disse ela, durante a posse do filho. O pai – Joaquim como o filho – não teve a oportunidade de ver o auge do ministro. Morreu há dois anos.

Fonte: Gazeta do Povo

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